Hélène Amouzou was born in Togo but has been living and working in Brussels for a while now. Some years ago, she took up photography. The results are self-portraits taken “mostly in her attic”.
(Source: jasperjames.co.uk, via observando)
Ainda não entendo nada. Pior, entendo menos ainda. Melhor. Antes tinha a soberba de saber ou almejar certezas. Hoje sei que há esses pontos de repouso, casas de um segundo, mas nada é, tudo vai e é só essa tentativa-caminho. Não perco minha bagagem, essa opção não existe. Mas tiro o eu da cara quando é possível. Preciso respirar. Esse turbilhão de transmutações em que me virei para existir, esse movimento desprotegido, ele me devorou. Não guardei nada, não tive espírito crítico, nem pé atrás. Estou devastada. Ruínas sobre ruínas. Nenhuma construção ficou de pé, mas devo caminhar carregando todos os escombros. Hoje não há limite. Após a última estadia, a contaminação daquele mar vermelho, rompeu minha crença. Hoje universo e mundo são águas misturadas. A minha história é toda a história em mais uma vertente. Enfim não quero a solução. Transito nesse mundo de graça de busca de sextas aflitas e desejos, mas reverto a linha e vou parar no silêncio de ser carne nua de tempo e querer. Me dizem para escolher, a indecisão não me permiti pertencer. Mas não sou como eles que conseguem esquecer que sempre estão lá e cá. Nunca abandono totalmente minha preciosidade. Vez ou outra cometo gafes e calamidades por não abrir mão de mim. No entanto também me recuso a ceder minha participação na roda. É muito mais difícil viver na fronteira. E é a minha delícia.
Os personagens principais (Horacio Oliveira, Johnny Carter, Medrano, Persio, Morelli, Alina Reyes, Roberto Michel, etc) são, por isso mesmo,de diferentes modos, perseguidores. Na verdade, também o autor o é. E a narrativa envolve na fábula recorrente de uma busca incessante. Caracteriza os perseguidores uma oposição fundamental com relação ao mundo em que lhes é dado viver, um mundo frafmentado, e sem sentido, o mundo absurdo a que tantas se referirá Horacio Oliveira, em Rayeula. Não podem aceitá-lo, pois nele se sentem desraigados e divididos, perdidos de si mesmos. Padecem o sentimento da “perda da totalidade”, da “essência universal do homem”, em que para Marx, consiste a alienação. São assim, rebeldes em face do que se torna habitualmente por realidade. A narrativa se propõe a desmascarar essa aparência, transformando-se numa indagação metafísica, numa busca do ser, na ânsia do real absoluto, que marca o misticismo sem deus de vários dos personagens, sequiosos de um céu no mesmo plano da terra em que pisam.O Escorpião Encalacrado.
The archaic lonely star blues
Me invento mais ou menos assim:
rasgo gavetas
impero planos perfeitos
recrio a ordem, traio meu santo
agarro os pés de Apolo
convicta
creio, obedeço
como se fosse planeta das idéias
esqueço
suor, imprevisto, meu ego, o erro.
Então, desenfreio
Incontida, cedo
vapor da lua, desejo, cidade, qualquer um, minha pele e Encanto.
muito menos e tão mais
ou nem tanto.
contrario e acerto, mas o acerto
escapa
qualquer coisa que falha.
impasse entre meus astros
ou o eterno desacordo, imagem & fato?
(metafísica, me amarro em simulacros;
transver fome em flor
desdobrar esbarrão em encontro
Os impulsos urgem contagiados de sopro
caso perdido, beatifico o contaminável
sagrado pra mim é o poro.)
Respondo e entendo: ser sem caimento a se inventar como se não houvesse paredes.
tudo mais que certo
não fosse o mundo (e sua obsessão por cimento)
Explicito:
não há fôlego pra equilíbrios, percorro extremo
fúria, som e desperdício
nunca um paralelepípedo me deu bom dia
e no entanto.
O desequilíbrio causado pelo excesso da bile negra torna o melancólico propenso a ser, “quase no mesmo instante muito quente e muito frio”. Mas é essa mesma possibilidade (que ele não escolheu) de habitar extremos que torna o melancólico aberto à criação poética. Ou seja: a “tornar-se outro”…
(Maria Rita Kehl)
circuito por um fio.
Prece das coisas mínimas:
minha vista já foi três mil em um só dia
por aqui se inflou o mormaço, a tempestade e a tua ilusão precisa
exausta mas de pé recorro ao sofá pra acompanhar os pássaros acessíveis no décimo quinto andar
entre os passos, a casa sobre as costas se ordena apenas por um som.
Sei que é difícil engolir a cidade
mas só vivo disto
espaço disposto pra exercer toda multidão que me desocupa
se teu eixo é o azul dos campos
não importa
corremos e meandramos no mesmo
paralisia de vertigem:
Na cara náufragos de rabiscos, batons vermelhos, orientação sexual, CPF, instituição de ensino:
O eu-mesmo embrulhado por dentro
parte do amontoado das escolhas nunca-já escolhidas
por fora, só esse resto
só esse resto que parece a origem
por fora, nós vazados
sem caimento
um esqueleto de janelas
tento me equilibrar no circuito e me derramo todos os dias
por um fio não me faço oferenda
por um fio não concluo o círculo
por todas as veias, ainda ir
descobrir a pele da língua
ouvir placas tectônicas
ser um ponto de carne no meio do oceano
só por um instante
um instante nulo de querer
surdez de útero
ruído de todo o tempo
apenas ver
redenção da ignorância dos nomes
depois
quando voltar a língua a casa os ombros o borrão e a cara
serei eu
convivendo astuta com o nada
assim atravesso espelhos
permaneço na história
e sem pudor
experimento outros
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